Anos depois de ter desaparecido da vitrine, Missinho (foto), que já passou dos 40, está de volta com o mesmo cabelo comprido, demonstrando jovialidade e uma serena disposição para retomar a carreira. Um recomeço sem grandes pretensões mercadológicas. O primeiro passo foi investir em projetos isolados, que incluiu a gravação do disco Pop sanfonado e um período de shows. "O que me estimulou a retomar a carreira foi sentir que a minha música continua viva, pulsante. Dei esse tempo porque acho que o artista, quando não tem algo legal para mostrar, deve ficar na dele. Forçar a barra é horrível", reflete o cantor e compositor.
As meninas eram loucas por ele. Filho de forrozeiro e compositor dos grandes sucessos do Chiclete com Banana na fase inaugural da axé music, Missinho era uma espécie de galã do Carnaval de Salvador na década de 80. A pele morena e o cabelão liso do cantor e guitarrista da banda, na época com pouco mais de 20 anos de idade, valiam como atrações à parte em cima do trio elétrico, numa fase em que galopes de sua autoria, como O mistério das estrelas e Sementes, provocavam frisson na avenida.
Mas o tempo desgastou o convívio e Missinho acabou não segurando as divergências internas com os outros músicos do grupo. "O assédio do público me causou alguns problemas. Não tinha culpa de aparecer mais do que deveria, e isso gerou muita ciumeira. Eu também queria experimentar outras coisas. Decidi sair, mas não ficou nenhuma mágoa", revela o ex-galã da banda.
O primeiro disco de sua carreira solo: Pop sanfonado conta com algumas músicas inéditas e realça a força instrumental da sanfona em todas as faixas. "Não posso esquecer a minha origem musical centrada no forró, herança de meu pai, Elias Alves. Este disco é uma viagem entre o passado das minhas canções que agitaram multidões, o presente (com a guitarra namorando a sanfona e a zabumba) e o futuro indefinido", conta o artista, que regravou, com novos arranjos, hits da sua fase no Chiclete com Banana.
Dentre eles, O mistério das estrelas, que estourou nas rádios baianas no inverno de 1984, esquentando o São João e tornando-se uma referência fundamental na história da axé music. Juntamente com o Fricote (gravado por Luiz Caldas), esse galope despertou donos de emissoras locais e de gravadoras para uma mina de ouro. Missinho lembra que, antes dessa fase, fez muito "laboratório" em micaretas e dividiu dias de "vacas magras" ao lado dos outros integrantes do Chiclete (ex-Scorpions). "Uma vez, tivemos que passar 36 horas dentro de um ônibus rumo a São Paulo, onde seria gravado o primeiro elepê da banda. Quando chegamos na rodoviária, fomos de mala e cuia direto para a gravadora. Eu não tinha sequer uma guitarra, que foi alugada às pressas", recorda. Em Salvador, os primeiros shows do Chiclete lotavam espaços como o Clube Português e a Casa D´Itália, numa maratona musical que costumava atravessar a madrugada em mais de quatro horas de som, no embalo de sucessos como No lume da fogueira, Lua menina e Tiete do Chiclete.
Após deixar o grupo, Missinho(foto com Dominguinhos) chegou a gravar cinco discos solos, porém sem alcançar a mesma popularidade. Quando se afastou do circuito, ele passou a se dedicar a outros trabalhos em estúdio, gravando jingles, fazendo experimentações em programas de computadores e ajudando na produção de projetos de outros artistas. “Acabei de fazer vários jingles para campanha política, no momento estou produzindo dois discos de cantores novos e a partir de novembro irei fazer shows pelo interior do estado” informa Missinho. Hoje, ao falar sobre sua história com os músicos veteranos do Chiclete com Banana, Missinho deixa transparecer boas lembranças, mas resumi o fim do vínculo sem meias palavras: "Não temos mais nenhuma relação, a não ser com o Jonne".



Cacik Jonne 







